Sábado, 8 de Setembro de 2007

Achados no baú (2)

Prossegue aqui a publicação de alguns Achados no Baú. Se é certo que, na actual cena do jazz internacional, coexistem em actividade músicos de diferentes gerações – o que contribui para a enorme diversidade estética hoje disponível à nossa descoberta – não é menos verdade que, mesmo apenas entre músicos de gerações mais recentes, potencialmente seguidores de vias expressivas muito próximas, também essa diversidade é um facto, o que contribui para a inestimável riqueza do novo jazz, situado grosso modo na transição do século XX para o século XXI.
 
Pareceu-me assim oportuno recordar hoje duas recensões críticas com meia dúzia de anos, que podem contribuir para uma reflexão sobre alguns traços essenciais do jazz actual.
Sem aviso prévio,
eis que chega o novo jazz
 
(in DN, 16.10.2001)
 
Como que constituindo um justo prémio aos esforços conjuntos da Associação Atlântica e das autarquias de Leiria, Pombal e Marinha Grande, o simples facto de o melhor concerto de jazz deste ano ter acontecido [durante o Festival de Jazz da Alta Estremadura], não num conhecido teatro de uma grande cidade mas no auditório transformado de uma histórica colectividade operária daquela última cidade, diz bem das radicais transformações culturais operadas nestas últimas duas décadas e meia entre nós, com incidência directa na produção e fruição artística.
 
Esse memorável concerto realizou-se [13.10.2001] na sala do Sport Operário Marinhense e quanto à aludida importância relativa da música ouvida nessa ocasião a prudência aconselha que se espere pelos resultados dos dois derradeiros festivais desta temporada (Seixal e Guimarães) para chegar a conclusões definitivas. Mas é, desde já, impossível ficar indiferente à transcendente demonstração de criatividade musical vivida durante a actuação do quarteto de Mark Turner e Kurt Rosenwinkel, pela simples razão de que esta é uma das mais convincentes expressões do novo jazz deste início do século, de uma vez por todas se sobrepondo ao estéril confronto entre tradições velhas e requentadas vanguardas.
 
Sem jamais deixarem de olhar para trás mas recusando-se a ficar petrificados, Turner e Rosenwinkel, admiravelmente ladeados por Reid Anderson e Nasheet Waits, protagonizaram um concerto apontado ao futuro, fazendo desfilar uma série de temas de grande densidade conceptual na configuração de uma música quase abstracta em termos de imediata identificação das formas mas de profundo rigor estrutural, sempre resultante da hábil soma dos múltiplos exercícios de imaginação individual expressos colectivamente em tempo real.
 
Poucas vezes nos foi dado assistir, assim (como nessa espécie de coral moderno que é Zurich), à coexistência de ideias musicais de sinal aparentemente contrário, com o pastoso vaguear «orquestral» das harmonias da guitarra associadas à primeira voz do sax-tenor a ser constantemente contaminado pela agitação funk de contrabaixo e bateria; ou à inesgotável invenção das linhas melódicas de amplitude infinda, como as de Neon e, sobretudo, Myron's World (peça de referência obrigatória no jazz actual), porque sempre estimuladas pela inesperada mobilidade dos centros tonais e pela constante desmultiplicação dos padrões rítmicos de base.
 
Se fosse preciso, ainda, algo mais para que a nossa razão e emoção se rendessem ao que foi, em múltiplos aspectos, radicalmente novo, bastaria a breve mas significativa recriação, no encore final, de uma obra-prima como Iverson's Odyssey para que se reforçassem (ao vivo) as convicções nascidas com a audição das últimas obras discográficas de Turner e Rosenwinkel. (…)
O jazz novo passou por Coimbra
 
(in DN, 29.07.2003)
 
Se quisermos discorrer, sem ideias preconcebidas, sobre os actuais caminhos da modernidade no jazz, o traço de distinção essencial que vem diferenciando o verdadeiro jazz novo da(s) mais consistente(s) estratégia(s) de projecção e reavaliação contemporânea(s) de diversas correntes marcantes no jazz do passado – bebop, hardbop, free, fusões – é aquele que, no plano conceptual mais geral, aponta para a transversalidade cultural dos seus protagonistas maiores.
 
Mais ainda, no plano dos dispositivos musicais em concreto, sem dúvida que a noção de desenvolvimento, enquanto estratégia composicional (previamente delineada em partitura ou criada em progresso) vem cada vez mais substituir-se à da invenção em tempo real enquadrada pelo tradicional esquema «tema-variações».
 
Ou seja, não se é hoje «mais ousado» em matéria de jazz só porque se reproduz de forma voluntarista – mesmo que com novos e oportunos argumentos – a estratégia libertária e de criação aleatória, própria dos tempos idos do free-jazz; tal como não se é «mais músico» apenas porque se domina, de cima para baixo e de trás para a frente, a improvisação sobre uma dada grelha de acordes. Mas porque, partindo de um princípio de identificação, domínio e apropriação consciente de tudo isto, se caminha depois para a construção de uma nova liberdade e se é capaz de dar o salto para a criação de formas bem mais exigentes de invenção.
 
Não é, assim, por acaso que alguns dos mais interessantes criadores do jazz novo se inspiram, explícita ou implicitamente, na obra (mas, sobretudo, no exemplo) de mestres e compositores adeptos de várias formas de «composição extensiva», como Duke Ellington, Charles Mingus, Andrew Hill, Julius Hemphill, Muhal Richard Abrams ou Anthony Braxton, inspiração tantas vezes materializada em peças originais próprias, susceptíveis de se desenvolverem em várias secções de configuração e expressão muito distintas, deste modo revelando muito menor pendor para a escrita de pequenos temas de estrutura mais ou menos clássica destinados a cíclicas e continuadas variações obrigadas a mote.
 
Embora já senhor de maturidade e carreira com lastro impressionante, insere-se neste contingente de novos compositores o baterista norte-americano Gerry Hemingway que [em 25.07.2003] protagonizou no Teatro Gil Vicente mais um concerto mensal do ciclo Jazz ao Centro, produzido pelo Centro Norton de Matos e inserido na programação musical da Capital Nacional da Cultura.
 
Uma actuação que, a exemplo do que já pude sublinhar a propósito do seu último álbum Devils Paradise, editado pela portuguesa Clean Fead, confirmou ao vivo o drive impetuoso de peças como If You Like, Full Off e Toombow (essa espécie de Night in Tunisia dos dias de hoje), o ambiente folk de Johnny’s Corner Song(admirável retrato musical da América profunda) ou, ainda, o peso e a grandiosidade erudita de uma suite como Space obras servidas pela fulgurante diversidade das técnicas de percussão do próprio Hemingway e também pela polivalência estética e instrumental de notáveis e habituais frequentadores do quarteto: Ellery Eskelin, Ray Anderson e Mark Dresser.
 
Em boa verdade, um dos melhores concertos do ano. [2003]
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:56
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